Cell Saver (Recuperação Intraoperatória de Sangue e Hemoderivados
Os procedimentos cirúrgicos estão associados ao risco de hemorragia transoperatória e à necessidade de reposição de componentes sanguíneos. Todas as transfusões estão associadas a riscos de eventos adversos. Com o intuito de diminuir a necessidade de transfusões alogênicas (transferência de sangue ou componentes sanguíneos de um doador para um receptor ) em cirurgias com grande perda sanguínea esperada, são utilizadas diversas técnicas de gerenciamento de sangue, incluindo diversos métodos de autotransfusão.
As transfusões alogênicas trazem alguns riscos conhecidos, classificados entre reações imediatas e tardias, infecciosas ou não infecciosas. No entanto, a segurança transfusional tem evoluído significativamente através de protocolos rigorosos de triagem e testes.
O Cell Saver
É um dispositivo médico de autotransfusão intraoperatória.
A autotransfusão é o processo pelo qual o sangue do doente proveniente do campo cirúrgico é aspirado, centrifugado , lavado e devolvido ao doente, atingindo um hematócrito elevado, entre 50 a 70%, mantendo as propriedades de transporte e entrega de oxigênio equivalente às reservas de eritrócitos alogênicos.
A sua utilização necessita da disponibilidade do equipamento e pessoal treinado para utilização do mesmo durante as 24 horas nos hospitais.
Estudos demonstram que o uso do Cell Saver diminui significativamente a taxa de transfusão de hemácias alogênicas, sendo eficaz em cirurgias ortopédicas, cardíacas (troca valvar) e transplantes hepáticos (redução de 15% a 27%).
A utilização do reaproveitamento sanguíneo possui as vantagens de:
● Não transmitir doenças virais;
● Diminuir o risco de aloimunização;
● Manter níveis de potássio séricos normais;
● Eliminar o risco de erro humano de transfusão de concentrado eritrocitário errado.[1]</ref>
Embora essas técnicas não estejam associadas aos riscos conhecidos das transfusões alogênicas, elas não são isentas de riscos e não eliminam completamente a necessidade de transfusões.
Indicações
O equipamento pode ser recomendado para procedimentos com previsão de perda sanguínea superior a 1000 ml, tais como:
- Cirurgias Cardíacas: Revascularização miocárdica e trocas valvares;
- Ortopedia: Artroplastia total de joelho e quadril;
- Neurocirurgias e Transplantes: Hepáticos e cardíacos;
- Casos Específicos: Pacientes com anticorpos raros ou Testemunhas de Jeová.
Contraindicações:
As contraindicações absolutas para a utilização desta técnica são a recusa do doente e a inexistência de profissionais com formação adequada para o manuseio do equipamento e processamento sanguíneo.
As contraindicações relativas são as hemoglobinopatias, nomeadamente anemia falciforme e talassemia (não existe evidência conclusiva)] e sépsis com grandes quantidades de pus no local cirúrgico.
O uso do Cell Saver em cirurgias oncológicas já foi considerado contraindicado devido ao risco teórico de reinfundir células tumorais junto com o sangue do paciente. No entanto, estudos e meta-análises recentes indicam que não há aumento significativo no risco de recorrência do câncer ou metástases quando a técnica é usada corretamente, especialmente com o uso de filtros especiais.
É importante esclarecer que a Cell Saver possui limitações técnicas e que nem sempre pode ser recomendado. O hemoterapeuta deve avaliar o uso da Cell Saver em conjunto com o médico e a equipe assistente.
No SUS
O uso do Cell Saver não é padronizado no Sistema Único de Saúde.
Referências Bibliográficas:
https://apurologia.pt/wp-content/uploads/2023/03/NEPC_Cell-Saver_Manual-Boas-Praticas.pdf